Crônica do Envelhecimento - Por Vina Ferreira



Envelhecer...

Uma palavra de quatro sílabas, que no dicionário se apresenta em duas versões:

- Verbo transitivo - Tornar velho; ou

- Verbo intransitivo Tornar-se velho.

Simples assim!

Porém, na prática, não tem nada de simples, pois o significado real dessa pequena palavra, principalmente, na vida de uma mulher, vai muito além.

Eu digo, por experiência própria, que envelhecer é um processo dolorido! Não pense que eu me vejo como uma mulher velha, não! Não é isso, mas, não serei hipócrita em não admitir, que o tempo já não é mais tão meu amigo, como éramos há 20 anos atrás.

Eu sou uma mulher madura, tenho 54 anos, em abril, completo 55 e acreditem, eu sinto todas as dores do amadurecimento e vou explicar o que isso representa para mim.

Nunca fui uma mulher vaidosa ao extremo, sempre tive bom gosto e desde menina adorava me vestir bem, com roupas e sapatos da moda e ai vem a primeira dor, aceitar que eu não posso mais usar os meus lindos sapatos de saltos agulha, ou os meus tamancos com enormes saltos de madeira, pois os joelhos doem. Confesso que foi um dos momentos mais difíceis para mim, ter que me desfazer deles porque estavam se desmanchando pela falta de uso.

Outro ponto, nunca tive neuras de me achar feia e também nunca tive o hábito de usar maquiagem ou passar horas numa academia, nada contra a quem têm, porém, para mim, isso jamais foi prioridade. Mas, o tempo, implacável como é, foi passando e eu descobri a duras penas, a necessidade de fazer algum tipo de atividade física. Isso porque, com a idade, alguns hormônios deixam de ser produzidos pelo meu corpo e eu preciso supri-lo de alguma forma, então passei a tomar colágeno todas as manhãs, fazer pilates duas vezes na semana e caminhar por uma hora nos outros três dias, buscando fortalecer os músculos para que eles suportem o peso dos ossos.

Ah, sabe aquela conversa famosa do Pedro Bial, que diz para você usar filtro solar? Pois é, tudo aquilo é a mais pura realidade. Quando eu li pela primeira vez, achei legal, mas pensei, isso não serve para mim e hoje, sou completamente adepta ao filtro solar e a todas as outras observações que constam no texto. Além disso, declaro que, minhas maquiagens passaram a ser itens fundamentais em alguns momentos, ou seja, me deparei com novos hábitos e percebi o quanto eles são essenciais diante da minha nova realidade.

Hoje, ao acordar, parei um pouco para pensar e ao me olhar no espelho, demorei alguns minutos para me reconhecer e me dei conta, de que eu já tenho algumas histórias para relembrar...

Um dia eu acordei e percebi que estava com 21anos, já era graduada em pedagogia, porém, não me sentia realizada, feliz. Foi então que libertei minhas asas e voei para longe de casa, eu queria estudar numa universidade que ficava há mais ou menos 110 km da minha cidade de nascimento, onde vivia toda a minha família. Me arrisquei e fui com a cara e a coragem morar sozinha em outra cidade, depois de alguns apuros, algumas dificuldades, algumas idas e vindas, por fim, eu me graduei em secretariado executivo bilíngue e esse, foi um dos dias mais felizes da minha vida, finalmente eu estava me especializando na profissão que eu sempre acreditei que tinha nascido para exercer e Deus, como valeu a pena! Cada noite sem dormir, cada roncar de fome do meu estômago, cada vez que tive vontade de comprar uma roupa, mas não comprei porque tinha que pagar a mensalidade, enfim, cada sacrifício valeu muito a pena, porque eu me graduei com orgulho e me tornei a profissional que sempre sonhei.

Mas então vem o tempo novamente, com sua pressa em caminhar e de repente, acordo com 35 anos. Me vi como uma mulher independente, exercendo a profissão que amava e voltei para casa, minha cidade natal, onde iniciei uma nova jornada que trouxe minha realização profissional e depois de um tempo, novas mudanças.

Minha caminhada agora tinha companhia. Me casei, compramos uma casa, adotamos quatro cachorrinhos e como a vida é uma dinâmica de muitos acontecimentos, tivemos momentos felizes, outros nem tanto, enfrentamos provações, dificuldades, superamos os medos, aprendemos a conviver e seguimos firmes na construção da nossa história.

Porém, um belo dia acordei e fui mais uma vez, surpreendida pelo tempo. Lá estava eu completando 50 anos e como um presente do Universo, descobri um lado oculto que habitava dentro de mim. Um livro nasceu, depois se tornou uma série, depois vieram outros e quando percebi, estava sendo chamada de escritora.

Uma verdadeira revolução aconteceu numa alma adormecida, um mundo de possibilidades se abriu diante dos meus olhos cansados e tudo se renovou. O mundo ganhou cor e a alma mudou o estado vibracional. Fiz novos e muitos amigos e voltei a sorrir de dentro para fora.

Porém, apesar da alma se rejuvenescer, o corpo não passa por esse mesmo processo, pelo contrário, o corpo entra num processo de transformação. Uma transformação real, sem volta, que me força a admitir, estou envelhecendo.

Dores nas costas, nos joelhos, a visão embaçada, me forçando a usar a óculos para ler e escrever, gordurinhas que se acumulam em lugares indesejados, o sono que já não é mais tão profundo, enfim, percebi que era o tempo passando e deixando claro, que nada mais será como foi.

Mas eu sou tinhosa, uma ariana teimosa, troquei o salto alto pela rasteirinha, passei a caminhar todos os dias e não deixei de dançar nas noites de festa, pelo contrário, me tornei mais livre, me permiti ser amada pelos amigos e me joguei nas diversas possibilidades de ser feliz.

E a despeito de toda a dor que é envelhecer, ela é real, um fato imutável, porém, ao me encarar diante do espelho, eu percebo que sempre estarei lá, pois apesar dos anos que se passaram, minha essência continua intacta e eu posso me ver como a menina que sempre acreditou em seus sonhos. Eu a vejo nos mesmos olhos que me encaram, no mesmo corpo que já não é perfeito, na mesma pele que já não é mais firme, nos mesmo ossos que se tornaram mais rígidos e ela está sorrindo ao ver a mulher que se tornou.

Uma sensação de orgulho me invade, orgulho das minhas vitórias e também, das minhas derrotas, pois cada uma delas, foi minha própria escolha, foi o que me tornou, com dor ou sem dor, na pessoa que sou!

(Vina Ferreira - 10.02.2021)



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