Mecanização do Corpo - Por Rafael Dias



Um impulso elétrico e as engrenagens começam a funcionar. O combustível gera a energia e os mecanismos se comunicam para que a execução comece. Movimentos repetitivos, rápidos, acelerados, sem pausa para pensar ou descansar, apenas cumprir a função sem questionar, pois não há tempo para discutir, é preciso produzir. O tempo acabou, a meta do dia foi concluída, agora é hora de desligar tudo, pois amanhã o trabalho da máquina começa novamente.

Chega ao ponto que o ser humano está se tornando máquina. Está é uma afirmação ousada, levantando em consideração a multiplicidade de culturas e sociedades existentes no mundo, mas não é absurda, analisando o contexto tecnológico do século XXI, em que as pessoas estão cada vez mais conectadas com as novas tecnologias e “tudo” está ao alcance de um clique, vale lembrar, que existem os pontos positivos nas evoluções tecnologias e também os negativos quando contribuem para o isolamento social e doenças corporais por falta de atividades físicas.

De fato, ainda parece absurdo, indagar que a mecanização do corpo é evidente, levando em consideração que ainda existem povos que não tem contato com toda evolução tecnológica e vivem em ambientes rurais e próximos de florestas, como os índios mais isolados por exemplo. Mas nesta analise a mecanização do corpo vai falar justamente de rotina de vida em metrópoles e capitais, onde no fluxo diário existe numa parcela significativa a massificação do movimento corporal.

E de qual movimento se está falando? Todo movimento que se estende desde a forma de se portar socialmente a padrões estéticos estabelecidos e elevados pela mídia, em que expressões corporais têm significações e métricas. O trabalho de expressão não vai em suma para a sala de aula, pois foi segregado e restrito na maioria dos currículos brasileiros a disciplinas de Arte ou Educação Física. Pode-se indagar que: Na Educação Infantil, as crianças trabalham muito a expressão corporal. Sim de fato, mas o que vai acontecendo com o avançar dos anos escolares? A resposta é simples, tudo que está ligado ao movimento expressivo vai sendo responsabilidade apenas das disciplinas já mencionadas anteriormente.

Assim, as aulas de Artes têm um direcionamento de produções manuais em sua maioria, com enfoque em datas comemorativas e as aulas de Educação Física com atividades esportivas nas quadras ou campos das escolas. Vale ressaltar, que existem as exceções, não se pode afirmar que em toda escola acontece desta forma e que todo professor possui uma metodologia igual, o direcionamento da discussão é sobre a essência de como o corpo geralmente é trabalhado no contexto da sala de aula.

Na infância o movimento acompanha o bebê em sua trajetória rumo ao equilíbrio sobre os dois pés e a construção da fala e neste processo limites e barreiras são encontrados que possibilitam a criança o descobrimento de outras formas de transpor e resolver as adversidades. Então ao cair ele levanta e vai usando apoios, conseguindo ficar de pé novamente, ao comer alguma coisa se não gosta do sabor automaticamente faz uma expressão facial sem preocupação de respeitar convenções que lhe serão impostas posteriormente.

Já na adolescência é um período de grande mudança corporal, fase de descobertas, de “tempestades” hormonais e transformações em suas vidas. Medos, novas experiências e fatores externos que vão influenciar em sua dinâmica corporal, seja na maneira de se portar ou se vestir. Fatores que vão incentivar à vontade pertencer a alguma “tribo social” ou não, pois estão em formação da identidade ideológica.

O corpo na adolescência estará sujeito à novas sensações e estímulos musicais, físicos e artísticos e a depender do contexto social que vive, experimentarão o contato com vivências com o movimento, seja pela pratica de esportes, danças ou mesmo a ausência destes, desencadeando o sedentarismo, por exemplo. Essas escolhas serão fundamentais para que utilizem sua expressão corporal em sua amplitude.

Na fase adulta vão sendo estabilizados os níveis de mudanças corporais e solidificando padrões de comportamento e expressão corporal. Citando exemplos de trabalhadores que em uma parcela significativa vivem rotinas repetitivas e a depender das atividades possuem movimentos repetitivos que vão mecanizando sua ação. As rotinas diárias vão se tornando mecânicas para aqueles que vivem em ambientes urbanos, ações que são realizadas e muitas vezes nem pensadas, pois já foram somatizadas ao corpo. Vale lembrar, que o corpo guarda toda memória corporal que vai sendo adquirida ao longo da vida, com afirma Thérèse Bertherat com colaboração de Carol Bernstein no livro O Corpo tem suas razões, “[...] Na rigidez, crispação, fraqueza e dores dos músculos das costas, pescoço, diafragma, coração e também do rosto e do sexo, está escrita toda a sua história, do nascimento até hoje. ” (pág. 11).

E em um contexto assim adolescentes e adultos enfrentam seus desafios de conquistarem seu lugar numa sociedade capitalista repleta de padrões e suas escolhas vão ajudar na construção do pertencimento há um grupo ou não. Cada situação vivência vai proporcionar aprendizados e transformações em sua individualidade. Sobre transformação Augusto Boal cita o filosofo Heráclito:


“Para mostrar o caráter de permanente transformação de todas as coisas, Heráclito dá um exemplo concreto: ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio. Por que? Porque na segunda vez e que entre já não serão as mesmas aguas as que estarão correndo, nem será exatamente a mesma pessoa, que será mais velha, ainda que seja de tão-somente alguns segundos” (Boal 1980 – pág. 10)


No filme Tempos Modernos (1936) com roteiro, direção e produção de Charles Chaplin é ilustrado de maneira muito clara a transformação do corpo em máquina. Fazendo uma crítica com humor dos trabalhos em linha de produção, em que o homem é submetido a constantes repetições e estes movimentos vão transcender em sua cotidiana. No contexto cinematográfico o espectador é convidado a refletir e se permitir comparar com a realidade, será que continua sendo assim com o passar do tempo? Até que ponto o filme, mesmo sendo preto e branco e mudo, o que amplia a visualização do visual, provoca no telespectador a mensagem de um corpo-máquina.

Por fim, fica claro que o corpo se torna maquina quando se é aceito as imposições estabelecidas e a “dança social” é executada sem questionamento, assumindo um grau de passividade e aceitação para se enquadrar em algum status. Cada indivíduo é dotado de inúmeras potencialidades e estás podem superar o conformismo e assumir a liderança das emoções, dos gestos de afeto e como ser um cidadão, é apenas uma questão de escolha. O ser humano não é uma máquina, ele escolhe ser.

OLIVEIRA, Rafael Dias, natural de Araras – SP, Escritor, Pedagogo pela UNEB (Universidade do Estado da Bahia), Pós-graduado em Ensino de Artes pela Faculdade de São Vicente – UNIBR. Terapeuta Energético (Reiki Xamânico, Mestrado Reiki Tradicional Usui e Cromoterapia). Condutor/instrutor de Meditações Tradicionais e Ativas, realizando experimentos e pesquisas sobre canalização de Energia Cósmica desde 2008. Também é Ator (DRT 42827/SP) pelo Senac São Paulo, Criador-intérprete em Dança Contemporânea e em Tanztheater (Dança-Teatro). Redes Sociais @rafaself.


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