Pandemia - Por Kenny Teschiedel



Tenho sentido alguns sintomas, mas fui advertido de que não são característicos do vírus que nos ronda. Garantiram que não é contagioso o que sinto, apesar de eu duvidar desse diagnóstico. Tenho impressão de que muitos estejam sentindo o mesmo que eu. Ao menos, as pessoas com quem falo.

Toda vez que rolo a tela e uma mensagem de luto (elas têm sido muito comuns de um ano pra cá), meus olhos marejam. Um mar que jorra dos visores. Sua água salina arde em resposta a cada despedida.

Da mesma forma, o coração se comprime. Tentei explicar aos doutores, fazendo desenho e analogias. “É a mesma sensação de quando amassamos um papel e ele vai ficando pequenininho, pequenininho”, relatei. Ainda assim, fui descartado. “Não infectado”, constava em meu laudo.

A cabeça não dói. Lateja. Os sonhos de cada um pulsando e o sepultamento deles, enterrando qualquer esperança, colhendo muitas incertezas. E acompanhar a impiedosa máquina triturar outros tantos duzentos e cinquenta mil planos que ficaram para trás provoca uma tontura desconcertante.

Meu desequilíbrio também não obteve justificativa. Labirintite, sugeriram. Não era bem disso que eu falava. Sanidade nunca foi possível de ser mensurada, tampouco com uma cutucadinha nas narinas. E como tem sido difícil mantê-la presa por detrás das máscaras.

Foi difícil me convencer de que eu não estava infectado e que, na verdade, esses eram indícios de cura. A prova real de que a vida pulsa, o efeito rebote de quem não foi contaminado, mas fora impactado da mesma forma. Porque aqueles que não sentiram nada, já deixaram de existir há muito tempo.

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