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OS SONHOS DE CLARICE

Por Neuza de Brito Carneiro


- Acorda, Clarice! Hoje não é dia de ficar sonhando! – Dizia para si mesma, lembrando-se de que era sábado. Além de preparar o almoço, como fazia diariamente, ainda tinha algumas roupas acumuladas que deveriam ser lavadas agora pela manhã. E se o tempo fosse bom, ainda seriam passadas e guardadas ainda hoje.

Levanta-se sem pressa, encarando o que deveria ser feito na rotina do dia. Dona Jandaia, sua patroa, não gostava de acordar cedo e não perturbava Clarice neste aspecto, já que esta era muito responsável no cumprimento de suas obrigações.

Fazia alguns bons anos que Clarice trabalhava para D. Jandaia, uma velha jovem senhora, sem marido e sem filhos, que se comprazia com a visita de irmãos, sobrinhos e sobrinhos-netos. Quando isto acontecia, e isto não era frequente, era aquela festa!

Clarice gostava dela. Gostava também do trabalho que fazia ali. A casa de D. Jandaia não era grande, mas tinha coisas que alegravam. Por exemplo, tinha muitas janelas, uma delas dando para um jardim gostoso, que enchia o ambiente com odores agradáveis; tinha um velho piano que, vez por outra, D. Jandaia sentava-se ali para dedilhar suaves melodias; tinha um quarto cheio de livros, ao qual ela dizia ser sua biblioteca; e, além dos livros, muitos cadernos onde D. Jandaia escrevia suas memórias ou outras coisas que o fosse. Não escrevia com pretensão de ser uma escritora muito lida. Ainda mais neste país, onde o povo não valoriza cultura e nem tem incentivos para tal. Ou simplesmente eram pessoas que não tinham recursos. Livros não são baratos! Não, ela não se desgastaria com isso. Mas também não deixaria de escrever. Talvez algum dia seus escritos lhe servissem além de mero passatempo.

Também não tinha computador, embora já estivesse se relacionando bem com o celular. “Para conversar com as amigas!” – Dizia sorrindo. Nem alguns artefatos, desses que facilitam a vida de qualquer família, como máquina de lavar roupas. “Para quê? As minhas roupas são poucas, não são sujas; lavá-las numa máquina apenas geraria mais despesas!” Clarice concordava com seus argumentos. Não era nenhum sacrifício lavar as roupas da patroa. E nem preparar sua comida diariamente, porque D. Jandaia não gostava de comida “dormida”! No mais, a vida ali era tranquila. Sem contar que Clarice amava a biblioteca de D. Jandaia. Limpava-a cuidadosa e periodicamente, e assim descobria livros que gostava de ler: Cervantes ... Vitor Hugo ... Tolstoy ... e muitos outros da literatura clássica ou nem tão clássicas assim. E lia! Lia com muito gosto! E sempre que terminava de ler um deles, levava outro para o seu quarto, para lê-lo nas horas vagas. Achava isso tão bom! Não conseguia entender porque as pessoas não gostavam de ler. Ler é como fazer belas viagens! No entanto, algumas pessoas que ela conhece, preferem viajar pela internet mesmo. Tem lá suas vantagens, mas não é a mesma coisa. A leitura do livro tem sabor!

E porque D. Jandaia gostava de escrever, tinha muitos cadernos. Era uma forma de passar o tempo, que se dividia entre viagens a passeio ou visitas a familiares e obras filantrópicas. Ela era engajada em muitas instituições ou de caridade ou culturais, e era muito requisitada. E por gostar tanto do seu modus vivendi, ela estimulava Clarice a não parar de estudar. Era bem mais interessante ter alguém que soubesse manter um bom diálogo, como conhecedora de fatos, do que contratar pessoas que só saberiam cumprir ordens, dizendo: “Sim, senhora!” ou “Não, senhora!”, sem maiores discernimentos. Ela não era afeita a dar ordens. Por isso, tinha Clarice como uma boa companheira no dia a dia, principalmente porque era muito responsável!

Por sua vez, Clarice reconhecia a vantagem de estar nesta situação. Não precisava acordar cedo, mas ela o fazia, pois assim teria mais tempo para sonhar e tentar realizar esses sonhos. Fazia suas atividades conscientemente e sem imposições, conseguindo sempre um tempo de sobra para estudar ou ler o que lhe apetecesse. E à noite ia para a faculdade. Fazia questão de concluir seu curso. Depois dele ... ah ... depois dele ...

Para, Clarice! Hoje é sábado, não é dia de sonhar!

 

Texto escrito por Neuza de Brito Carneiro, autora do Livro A procissão dos Afligidos, publicado pelo selo editorial Venha Fazer História e a venda no site da UICLAP.

Você pode conhecer o livro digital na Amazon ou o físico clicando no botão de compra.


Sinopse: Procissão dos Afligidos traz poesias que apontam as desigualdades e mazelas sociais, as injustiças que são cometidas por pessoas que poderiam mover os rumos da história no intuito de diminuir tais distâncias, proporcionando o bem-estar coletivo, incentivando a educação como mola propulsora do desenvolvimento eficaz, almejando um mundo de paz, acreditando que isto é possível, se houver interesse da parte dos que têm o poder em suas mãos. Vivemos tempos sombrios, não somente no presente, visto que no passado esse clamor existia, como mostra o poema “Quanta mudança, Jeremias!” em suas denúncias contra a classe dominante de sua época. É tempo de refletir.

O poema “Sempre Foi Assim” convida a esta reflexão sobre o que se pode mudar para melhorar. Talvez seja possível nesses tempos mais críticos, em decorrência da pandemia, promover a paz e estabelecer a justiça que todos desejam, a fim de que esta Procissão seja dos felizes redimidos e não dos afligidos ou oprimidos por circunstâncias adversas, incontroláveis e indesejáveis. Porém, a despeito de tudo, a esperança se encontra presente apontando caminhos para um mundo melhor. Sempre haverá uma porta para se abrir!





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